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The Nevermet Ensemble - Quarto Escuro
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A música de Miguel Cabral tem-se cingido por dois princípios. O primeiro é o de que toda a música é "misturável", ou seja, de que há sempre algo de comum ou de relacionável em todos os estilos e famílias musicais. O outro é a noção de que, para a feitura de uma música colectiva, que envolva um grande número de participantes, a distância geográfica e física não é um impeditivo. O primeiro passo deu-o há uns anos com o primeiro álbum do projecto Mola Dudle ("Mobília", AnAnAnA), construído a meias com Nanu nas idas e vindas do correio entre os arredores de Lisboa e o Algarve, associando canção e experimentalismo sonoro. O Nevermet Ensemble é o passo seguinte, mais ambicioso ainda. Tendo como referência os aposentos "às escuras" de alguns clubes nocturnos que promovem encontros sexuais desresponsabilizados (sobretudo de orientação "gay" ou S&M), na medida em que não é possível ver quem é ou quem são o(s) parceiro(s), "Quarto Escuro" é um "blind date" de músicos que responderam ao apelo de Miguel Cabral enviando-lhe de países como a Bélgica, Espanha, os Estados Unidos, França, Itália e Japão gravações por eles preparadas e destinadas a serem cruzadas e associadas no seu estúdio, com adição do próprio arsenal de instrumentos do português (violino, flauta, "saxoo", bateria, percussão, órgãos, bandolim, guitarras eléctrica e acústica, gravador, acordeão, piano gravado com telemóvel, programações electrónicas, objectos, voz), resultando num produto outro que não aquele por cada um inicialmente intencionado. Alguns deles são bastante conhecidos nos meios da música "de arte", como é o caso de Godfried Willem-Raes, um nome ligado ao movimento Fluxus, mas de outros nunca ouvimos por cá falar. Uns e outros utilizam desde instrumentos convencionais a autómatos, brinquedos, "field recordings" e electrónica digital.
"Quarto Escuro" é, então, o equivalente musical às colagens Dada e uma espécie de "cadáver esquisito" surrealista, sem necessariamente ter a ver com o "cut and paste" da música feita com samples. A abordagem de Miguel Cabral é mais crua (menos composicional, se quiserem) e, digamos, mais "punk", no sentido em que lhe interessa evidenciar não o fascínio dos usos técnicos e tecnológicos, mas a grande maleabilidade dos próprios materiais com que trabalha. E isto mesmo quando se esforça por estruturar e por dar forma às conjunções que vai edificando com as contribuições dos seus convidados, enquadrando os mais inusitados sons em molduras que poderemos conotar com o rock industrial, a electropop ou outra tipologia organizada. O objectivo é mesmo confrontar o ouvinte com estratégias de reconhecimento e estranheza, preferindo problematizar a seduzir e obrigando à máxima atenção por via do que há de intrigante nas situações criadas.
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